Entrevista de Eiichiro Oda de 1998 (RARÍSSIMA)

Uma história sobre desenhar o último quadro

Pela primeira vez em certo tempo, surge um autor com uma história interessante, que se pode denominar como “representante do mangá Shounen”. O autor é Eiichiro Oda, que está desenhando One Piece na Weekly Jump. Objetiva e energética, é uma história com fluxo bem definido, a qual ele deixa rolar, a fim de desenhar personagens legais. Esse é um atrativo eletrizante que é mostrado na raiz do mangá Shounen. Apareceu então um autêntico do gênero que foca na emoção que tivemos quando éramos crianças e quando nossos corações aceleravam com as histórias.

P: Existe algo que você coloca em mente enquanto você desenha One Piece? Pode ser um slogan, também.

Oda: Eu coloco em mente que devo dizer as coisas claramente. A história principal é a parte onde Luffy se torna o Rei dos Piratas, mas eu quero ter certeza de que ele quer ser e como ele se sente deve ser muito claro. Deixa até você tímido desenhar isso tão diretamente, e é por isso que você freqüentemente não vai direto ao ponto, e torna isso mais cativante do que na verdade é. Mas para garotos, acho que alcança exatamente o efeito oposto. Você se sente melhor se apenas dizer isso em voz alta. Eu percebi isso quando lia o trabalho de Leiji Matsumoto, antes de eu começar a desenhar minha série que você pode dizer coisas tão embaraçosas de uma maneira tão direta. E ficou legal do seu jeito, e bom de se ler. E era isso que eu queria fazer.

P: É verdade, como em Galaxy Express 999, Harlock aparece do nada, diz o que quer — como “Não desista dos seus sonhos!” — e depois vai embora.

Oda: Sim, é esse sentimento direto! (risos) Eu acho isso o máximo. E é por isso que o meu slogan é não ficar envergonhado com nada.

P: Alguma outra coisa?

Oda: Tem que ter “emoção”. Essa emoção que você tem quando lê Dragon Ball. Eu acho que você tem que ensinar mais uma vez esse sentimento aos garotos.

P: Então, você tem um pedaço de papel com as palavras “uma produção emocionante” perto da sua mesa…

Oda: Sim. Uma produção emocionante. Aquele sentimento quando você compra uma Jump numa loja de conveniência, e você pára no meio da rua do caminho de volta e a lê, porque você não consegue esperar até chegar em casa. Quando eu tenho algo para contar aos meus leitores, eu não posso ficar envergonhado — Eu tenho que dizer diretamente.

P: Mas eu acho que emoção não é o único atrativo. Eu acho o porquê de adultos se sentirem bem lendo o seu trabalho é que as idéias parecem que saem do trabalho.

Oda: É verdade. Acho que você está se referindo ao sentimento relaxante. Eu realmente quero mostrar mais como os amigos relaxam no convés do navio do que quando lutam. Mas se eu fizer isso, nem todo mundo vai gostar do trabalho. Obviamente, eu amo desenhar cenas de luta também, mas eu realmente amo as histórias sem sentido que estão no meio. Aquele sentimento que você tem no vale Moomin. Aquela atmosfera despreocupada.

P: Então suas palavras-chaves são “emoção” e “relaxamento”?

Oda: Pode-se dizer desse jeito. Eu acho que estaria tudo bem se os garotos não entendessem a parte do relaxamento. Tem que ser assim mesmo. É por isso que está tudo bem se demorar um pouco mais até que eles realmente entendam isso.

P: De onde o tema pirata veio?

Oda: Eu amo ele desde que eu era criança. Eu comecei com Bikke, o pequeno Viking. Eu acho que todo mundo gosta de piratas até certo ponto: A aparente primeira impressão de que são malvados, e o sentimento de que eles devem ter grandes sonhos para seus futuros. Na vida real, eles são realmente vilões, mas você tende a ignorar esse aspecto e a criar suas próprias idéias sobre eles na sua cabeça, certo? Eu gosto desse tipo de coisa também, e eu queria usar algo do tipo. Então, eu estou desenhando minha série, sem colocar em mente coisas da história verdadeira.

P: Mas, ainda, eles são realmente vilões enérgicos, não são?

Oda: Eu tenho uma política que diz que quem grita ganha. Mesmo que suas crenças não sejam boas, aquele que brada seus sentimentos é o vencedor. Aquele que for subjugado perderá. E é por isso que apesar do fato que ele queira ser um cara tremendamente mau, chamado de Rei dos Piratas, se ele gritar com toda sua energia, ele vencerá, na minha cabeça. Eu me tornei um artista de mangá, porque eu queria desenhar. Então, eu seguirei na minha história para desenhar a arte que eu quero desenhar.

P: Existe uma regra dentro de seu trabalho?

Oda: Eles não podem voar! (risos) Porque se eles voarem, eles não vão precisar mais de navios. E também, eles seriam capazes de tudo… Eu estou realmente focando no aspecto de navegar pelos mares. Além disso, eu tive um feiticeiro numa história pequena uma vez, mas eu não vou usar isso na minha série. Quaisquer situações ilógicas serão criadas pelas Frutas do Diabo. Nesse ponto é um pouco supernatural, todo o resto é normal.

P: Eu iria perguntar sobre os seus traços artísticos. Você tem particularmente algum estilo de um artista que o influenciou?

Oda: Eu criei meu estilo na época do primário. Eu acho que todo mundo tem um período de copiar o trabalho de alguém. Para mim, foi Kinniku-man e Hokuto no Ken. Mas eu acho que o efeito que Dragon Ball fez em mim foi o maior. Eu devo dizer que eu realmente desenhei um monte da arte de Toriyama-sensei, então acho que ainda carrego esse hábito até hoje.

P: Mas você tem seu próprio estilo distinto.

Oda: É um estilo que criei de propósito. Não foi algo que veio de mim naturalmente. Eu apenas queria desenhar de um jeito que nenhuma outra pessoa estivesse desenhando. Por exemplo, eu tive uma época árdua fazendo todos os olhos realmente pequenos. No começo, era difícil, e os olhos direito e esquerdo eram desviados do lugar. Se eu olhasse para Wanted! agora mesmo, eu poderia dizer que ainda são um pouco desviados. Era, afinal de contas, o primeiro mangá que eu desenhei depois de trocar para aquele estilo. Mas, à medida que eu desenhava mais e mais, eu gostava mais e mais. É por isso que eu fiquei nele, não importando o que os outros diziam. Nesse estilo, quando os olhos desviam poucas dezenas de milímetros, ele bloqueia a expressão de emoções. Quando você quiser que o personagem olhe para frente, você realmente tem que desenhar o olho numa posição que olhe para frente. Você pode contornar isso bastante se você tiver olhos grandes… É engraçado porque você não pode enganar ninguém com olhos tão pequenos.

Wanted!: Primeira obra de Eiichiro Oda, com uma série de mini-histórias.
Uma delas se chamava Romance Dawn, protótipo de One Piece.

P: Então, é para prestar atenção nos olhos do Luffy?

Oda: Você deve prestar atenção, sim.

P: Você mencionou trabalhos de mangá que foram inspirações para você. Se você tiver alguma outra coisa, fora mangá, que o inspirou, por favor nos diga.

Oda: Eu não sou bom para letras, então não leio romances. Eu apenas leio livros que recomendam para mim. Como Mokeyo Ken (Queime, espada!) e coisas do tipo: aqueles que lidam com a alma dos samurais. Você poderia dizer que são romances cheios de sentimentos (risos).

P: E quanto a filmes?

Oda: Eu amo filmes. Eu gosto de Faroeste. Tinha um chamado de Young Guns, e ele deve ser o melhor filme para mim. Ele foi tão irado. Eu acho que a primeira vez que o vi foi quando eu estava no Ensino Médio, por isso que desenhei Wanted! bem depois. Além disso, gosto dos trabalhos de Quentin Tarantino. Eu amei Pulp Fiction. Onde todos os caras em Reservoir Dogs andavam por aí em ternos, também. Aquilo foi tão legal. Pessoas que querem virar artistas de mangá, mas não podem, estão apenas sem amor suficiente por mangá. Desde quando tinha 4 anos, o único futuro que podia imaginar para mim era o de virar artista de mangá.

P: Ambos são filmes que são bons em criar um momento para se exibir.

Oda: Eu acho que ele [Tarantino] também teve suas influências de todos os tipos de lugares. É por isso que todos os tipos de coisas “massa” estão concentrados em seus filmes e os fazem interessantes.

P: Você sente algo contra ser influenciado por alguém?

Oda: Não muito. É claro que você não deve ser um copiador, mas você não pode deixar de ser influenciado por alguém. Eu acho que é algo que você deve absorver e evoluir aquilo como uma parte de seu próprio estilo.

P: Enquanto você faz uma série, você não fica curioso sobre as reações na semana seguinte?

Oda: Eu aguardo ansiosamente a reação quando eu crio algo, seja um elemento surpresa, ou um elemento cômico, ou um elemento assustador. Eu estava bem confiante sobre o primeiro episódio, também. Tenho certeza que as pessoas acabaram gostando de Shanks. Mas, para falar a verdade, estou assustado com quão grande sua influência se tornou. (risos) O mesmo para quando o Bando Pirata Usopp se desmembrou, eu realmente queria ver a reação de todo mundo o mais depressa possível. Quando eu li as cartas que diziam “Foi o máximo!”, eu me senti muito tocado ao lê-las.

P: Você gosta de cenas tocantes como aquela?

Oda: Eu pensei em desenhar uma história tocante depois de ver Nausicaä do Vale do Vento. Eu imaginei, “Eu quero fazer eles chorarem também!”. É por isso que eu tenho “como tocar o coração das pessoas sem matar alguém” como um dos meus temas. Eu sinto que matar pessoas é muito fácil. Mas, se a história fluir nessa direção, nada pode ser feito. Por enquanto, eu acho que tem um caminho para as pessoas ficarem tocadas sem ir matando personagens.

P: Separando-se sem mortes, parece que estão usando seus próprios desejos para partir, e que eles estão virando as costas um pro outro. Parece provar ser uma cena magnífica.

Oda: Eu acho que é o máximo. Eu gosto de cenas como essas.

P: Agora, sobre a trama que está por vir…

Oda: Agora mesmo, estou fazendo o prólogo sobre o que eu realmente quero fazer. Por enquanto, eu não quero correr as coisas, e sim, levar na calma… e solidificar os personagens um por um. Meu primeiro objetivo agora é um grupo de personagens que possam atuar juntos como amigos, e ver o quão magnífico eles todos parecem quando se organizam perto um do outro. A única coisa que preciso é um lugar para eles. Como ponto principal, tenho certeza que serei capaz de desenhar quase tudo depois de eles entrarem na Grand Line, então preciso correr para lá. Meu editor ficará furioso comigo também, se eu não apressar. (risos)

P: Então, quantos personagens estarão no grupo principal?

Oda: Eu não sei! (risos) Idealmente, eu gostaria que fosse por volta de 10 pessoas. Agora mesmo, eu oficialmente tenho 4 pessoas. Até 4 pessoas é difícil de se lidar, porque todas elas querem fazer suas próprias pequenas coisas.

P: Quem é o personagem mais negligente em termos de fazer o que eles querem?

Oda: Só pode ser o Luffy. Se eu deixar ele à solta, ele se livra dos inimigos que eu cuidadosamente preparo para ele num instante! (risos) Mas ele é também aquele que suspende todas as pendências. Então, Luffy pode realmente servir de obstáculo, ou realmente me ajudar.

P: Por fim, você poderia nos dar um comentário para todas as pessoas que queiram virar artistas de mangá?

Oda: Não acho que se tornar um autor de mangá seja realmente algo que você faça apenas dizendo que QUER isso. Porque, se você gosta de desenhar, eu acho que você ambiciona fazer naturalmente. Se você realmente quiser ser um artista de mangá, eu acho que você pode realmente ser um. Se não, significa que você não gosta mesmo de desenhar, ou não gosta de escrever histórias. Acho que nossa indústria é assim. Acompanhe as tendências, e desenhe o que quiser desenhar. É isso o que penso.

P: Você vai continuar desenhando mais, certo, Oda-san?

Oda: Sim, eu irei desenhar mais.

Texto original traduzido por JoJo.


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